01/07/2015

Carta para um suicida - uma reflexão sobre o suicídio



Carta para um suicida

Mesmo sabendo que nada disso adianta mais nada, restará sempre a questão crucial: Por que?
Mesmo sabendo que nada poderia ser feito, ecoará nos corações daqueles que ficaram: Poderia ter feito algo mais? Dito alguma coisa? Realizado um gesto a mais?
Mesmo sabendo o quanto somos impotentes, continuaremos a nos questionar: Por que não percebemos seu sofrimento? Por que não fomos capazes de abrandar sua dor?
Mesmo sabendo que não devemos julgar, sempre repetiremos frases prontas: O que pode ser mais valioso do que a vida?
E quando nos frustramos a ponto de nos enraivecer, perguntamos: Como pôde?
Mas mesmo sabendo que nenhuma resposta nos consolaria, sempre retornamos à questão inicial: Por que?

自殺で往生された方へ

すでにもう何もならないとわかっていても、残りつづくのは「何故?」という問いです。

もう何もできないとわかっていても、残されたものの心の中に響きつづくのは「ほかに何かしてあげてたら、何か言ってあげてたら、何かできていたかしら?」の思いです。

いくら無力だと知っていても、聞きつづくのは「どうして悲しいことに気つかされなかったの? どうして寂しさを穏やかされなかったの?」と言いきれないことです。

裁くことできないと知っていても、言い慣れた言葉を繰り返しながら「生きている命こそ有難いのに、粗末なことを」と思えます。

怒りあふれるほど悲しみながら問い合わせたいのは「なぜこんなことされたの?」としみじみの思い残りです。

いくら答えがあっても、慰めされないことだとわかっていながら、最初的な問題の「何故?」へ戻りしがみつきます。


Reflexão acerca do suicídio

No Brasil, estima-se que 25 pessoas cometam suicídio por dia, enquanto que no Japão, o índice de suicídios está entre os mais altos no mundo. Os números passam de 20 mil casos por ano e devido a essa alta taxa de mortalidade por suicídio, começou-se uma discussão quanto a sua nomenclatura. As palavras em japonês são formadas a partir da junção de ideogramas Kanji, e no caso da palavra suicídio, existem duas palavras: 自殺(Jisatsu) e mais recentemente tem-se visto com frequência a grafia 自死(Jishi). Em ambas palavras o primeiro Kanji indica o prefixo ‘auto’, na primeira designação Jisatsu, o segundo Kanji “satsu” significa matar, assassinar. Enquanto na segunda palavra o Kanji ‘auto’ junta-se com o Kanji morte. Os defensores da troca do termo para a opção Jishi alegam que a ideia de auto-assassinato (autocídio) é muito dolorosa para a família do suicida que além de sofrer a dor da perda ainda enfrenta o sentimento de desvalorização e desprezo pela vida. E que a designação auto-morte seria menos agressiva. Essa situação pode se agravar mais ainda se levantarmos o arquétipo do suicídio honroso, ou o Seppuku, a morte honrosa da casta dos Samurais, uma forma digna de se expurgar contextos de vergonha e culpa. Além dos Kamikazes da Segunda Grande Guerra Mundial. E exemplos mais recentes como o dos escritores Ryûnosuke Akutagawa (1892-1927) e Yukio Mishima (1925-1970), o que confere uma certa dose sedutora e efemeridade intelectual ao ato.

Pensando em português, a palavra suicídio foi criada em 1737 por Desfontaines. Com origem no latim – ‘sui’ (si mesmo) e ‘caederes’ (ação de matar). A atitude suicida aponta para a necessidade de buscar a morte como um refúgio para o sofrimento que se torna insuportável.
Geralmente tratado como um tabu, familiares e a comunidade cobrem-se com o véu do silêncio e a questão é evitada. A sociedade reage ao suicídio de acordo com o período histórico e sua cultura vigente. Por exemplo, na Roma antiga, a morte não tinha muito significado, mas era um ato digno e significativo que tinha de ser realizado no momento certo, ou seja, importava mais o meio de morrer - honrosamente servindo o Império. Os primeiros cristãos consideravam a morte como a libertação do mundo terreno cheio de sofrimentos e pecados, uma antecipação para o Paraíso. Nos séculos V e VI nos Concílios de Orleans, Braga e Toledo foram deliberadas mudanças que proibiam homenagens aos suicidas, e os que não alcançavam seu intento, sobrevivendo, eram excomungados. Assim o suicídio nessa época era considerado um crime e um pecado hediondo e as consequências estendiam-se inclusive aos familiares que enfrentavam preconceito e perseguições, condições agravadas pelo fato de que o suicida muitas vezes responsabiliza as pessoas ao seu redor por sua decisão, desqualificando os sobreviventes como inaptos e castigando-os como uma forma de vingança das agressões supostamente recebidas. Somente na era do Renascimento quando destacou-se os ideais românticos é que o suicida foi resgatado, instituindo-se em torno dele um certo fascínio e outorgando-lhe o devido respeito.

Iniciei este texto sobre suicídio pensando inversamente, em vez de uma carta suicida, pensei no que gostaríamos de dizer àquele que se foi. Posso afirmar que não há nada mais atordoante para uma família do que o suicídio de um ente querido. Vi isso acontecer na minha família destroçada, e mais recentemente realizamos os ritos fúnebres de uma pessoa muito querida da nossa comunidade, que muito me incentivou na jornada de propagação do Dharma. Assim, penso que o mais importante é zelar pelos que sobreviveram, pois a estes cabe todo peso da dor da perda. E a questão que mais aflige é se a pessoa que cometeu o suicídio está ou não em paz.

Sobre isso, diz o Rev. Takehashi:
“No nosso contexto do Shin Budismo, o suicídio é apenas mais uma das formas de se morrer, circunstanciado e condicionado a incontáveis entrelaçamentos do En (Interdependência) e portanto, não difere de qualquer outra modalidade de morte. E ainda mais para o Shin Budismo, não pensamos a morte a não ser como o ‘Ôjô’, o Ir-Nascer na Terra Pura. Embora isso não nos isente de sofrimento e dor. É muito triste, principalmente para aqueles que eram próximos e que foram deixados.”

Ao receber esta mensagem, me veio à mente as primeiras frases do hino ‘Mihotoke-ni Idakarete’, cantado nos ritos fúnebres: “Abraçado pelo Buda, foste para a margem ocidental (Terra Pura). Apagam-se as saudosas memórias. Para nós, resta a tristeza de tua ausência”.

O Buda Shakyamuni também deparou-se com o suicídio de discípulos. No Samyutta Nikaya IV.23 lemos sobre o suicídio do Venerável Godhika:
“Assim de fato é como os determinados agem:
Eles não têm apego à vida.
Extirpando o desejo pela raiz,
Godhika realizou o parinibbana.”
“Com a conquista do exército da Morte,
não retornou para uma nova existência,
ao extirpar o desejo pela raiz,
Godhika realizou o parinibbana.”

E no Majjhima Nikaya, 144 sobre o suicídio do Bhikkhu Channa:
“Há vacilação naquele que é dependente, não há vacilação naquele que é independente; onde não há vacilação, há tranquilidade; onde há tranquilidade, não há preferências; onde não há preferências, não há ir e vir; quando não há ir e vir, não há falecimento e renascimento; quando não há falecimento e renascimento, não há o aqui nem o além, nem o que está entre os dois. Esse é o fim do sofrimento.”
“Então, o venerável Sariputta foi até o Abençoado e depois de cumprimentá-lo, sentou a um lado e disse: “Venerável senhor, o venerável Channa usou a faca. Qual será o seu destino, qual será o seu futuro percurso?”
“Sariputta, o bhikkhu Channa não declarou para você a pureza dele?” “Venerável senhor, há um vilarejo Vajjia chamado Pubbajira. Lá o venerável Channa tinha famílias que eram amigas dele, famílias que eram íntimas dele, famílias que mereceriam censura.”
“Há essas famílias que eram amigas do bhikkhu Channa, Sariputta, famílias que eram íntimas dele, famílias que mereceriam censura; mas eu não digo que por isso ele seria censurável. Sariputta, quando alguém deita este corpo e se apega a um novo corpo, então eu digo que esse alguém é censurável. Não houve nada disso no bhikkhu Channa; o bhikkhu Channa usou a faca de modo puro.”

Resta-nos apenas abaixar a cabeça, juntar nossas mãos e recitar Namu Amida Butsu.


Sayuri Tyô-Jun 01/07/2015



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