05/09/2015

Reflexão para os Ordenados no Budismo Shin



“Em última análise, a questão é: O que você mesma busca? O que é o Budismo para você?”
Essa questão me foi dada pelo Rev. Takehashi meu Orientador no Japão, como uma reflexão que eu deveria carregar comigo para sempre.
Depois de 2 anos e meio em que me dirigi a Kyôto ao Templo Matriz e me curvei até o chão, três vezes, diante da imagem do Mestre Shinran jurando honrar os Votos até o final dos tempos, sempre procuro forças no Tiçarana: "Difícil é obter o nascimento na condição humana e agora estou nela vivendo. Raro é termos a oportunidade de ouvir o Dharma do Buda e agora, a mim é dado conhecê-lo."

Cada qual tem seu próprio caminho a seguir e as próprias motivações que encorajam o passo seguinte. Não conseguiria listar em poucos itens, as razões que levam brasileiros descendentes de japoneses (como eu) ou não, a ordenarem-se e fazer parte de um Samgha, de uma Ordem Religiosa japonesa, submetendo-se a uma organização hierárquica e burocrática que muitas vezes parece distante e frio, contrapondo-se com os profundos ensinamentos deixados pelo Mestre Shinran.
Mas a tomada de decisão pela Ordenação, em tese, deveria ser precedida pela consciência dos sacrifícios que se impõem acima do que consideraríamos prioridades em nossa vida secular e mundana como família, trabalho, amigos, estudos, saúde, lazer, prazer, amores (não necessariamente nesta ordem). Pois nós nos comprometemos através da tomada de consciência do 'Tríplice Refúgio nas Três Joias' justamente para que a vida a nós destinada, não passe em vão perseguindo ilusões ou buscando a felicidade em coisas impermanentes.

A Ordenação não confere poderes especiais nem nos agracia com um conhecimento supra humano que possa desvendar os segredos da vida. Pelo contrário, esbarramos a todo momento nas contradições de nossas próprias vidas e somos assombrados por nossos ilusórios fantasmas particulares. Ordenar-se é um passo rumo a um Caminho de dedicação e estudos e muitos, muitos sacrifícios. São renúncias internas e externas. É um processo constante de auto análise, é desconectar o ego de tudo que possa fortalecê-lo, catalogar as incontáveis personas e identificar o eu verdadeiro no meio de um oceano de incertezas.  

No Japão, meu Orientador advertiu-me: “Por mais que nos dediquemos e estudemos o Budismo, nossa tendência como seres humanos que somos, é sempre querer adequar os Ensinamentos (Dharma) àquilo que nos move, àquilo que nos convêm”. Eu diria que esse sentimento é a prevalência do Bonnô (Paixões Mundanas) sobre nós, mas justamente identificar a supremacia de nossas paixões sobre nossas boas intenções é que faz a busca pelo Caminho do Buda um desafio validado por todos os Bodhisattvas.

O estudo é essencial, a prática do escutar, ouvir com atenção é imprescindível. Mas pavonear-se de pseudo-sábio decorando citações filosóficas de grandes pensadores do Shinshû, enumerando tratados e teses de grandes Mestres do passado ou rabiscando ideogramas indecifráveis (de tão mal escritas) para ilustrar palestras, isso tudo não passa de simples “armadilhas do ego”.

Seguir em frente é o único caminho possível, uma vez adentrado o primeiro passo (Ordenação) no Caminho. É adquirir a certeza de que realizamos o trabalho do Buda Amida, malgrado nossas limitações, oferecendo nossa voz às palavras do Buda, transmitindo o Dharma e dando forma e continuidade ao Samgha.

Em dezembro do 2014, pude retornar a Kyôto para estudos. Fazia muito frio e ao passar diante do majestoso Gôei-Dô (Pavilhão do Mestre), onde me ordenei junto com meus amigos brasileiros em 2013, contemplando o telhado recém restaurado cortando o vento gélido da manhã de inverno, pensei comigo mesma: Eis-me aqui de volta, pela graça do entrelaçamento de incalculáveis En (Interdependência) posso hoje rever-te. Um forte vento neste instante quase arrancou minha boina (ou béret, como gosta de dizer meu amigo francófilo) trazendo o eco das vozes de tantas e tantas vidas que ali estiveram como eu, contemplando e recitando Namu Amida Butsu.  Devaneio, imaginação ou não, de dentro do Gôei-Dô eu ouvi em resposta: “Okaerinassai.”

Espero sinceramente que a questão inicial: ‘Qual é a minha busca, o que é o Budismo para mim?’ seja uma constante para todos nós, buscadores do Caminho, para podermos sempre nos renovar e revalidar nossos Votos, que nos unem desde os tempos do Buda Shakyamuni, irmanando-nos para sempre. E que sejamos abraçados pela Compaixão do Buda Amida.

“O Dharma, incomparavelmente profundo e precioso, é raramente encontrado mesmo em centenas de milhares de ciclos universais. A mim, agora, é facultado vê-lo, escutá-lo e guarda-lo. Possa eu, verdadeiramente ser alcançado pelo poder das palavras do Tathagata.”
(Trecho final do Tríplice Refúgio)


Sayuri Tyô Jun
Gôei-Dô em dezembro de 2014

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