02/10/2015

O “Shukke” (出家) no Shinshû




“Não é porque você ama alguém que tem o direito de ficar com ela e ferrar com a vida dela”. (Dean Winchester – Supernatural)

Há tempos pensava em escrever algo a respeito do conceito de Shukke dentro do Jôdo Shinshû, mas todo material que encontrei enfatizava que na nossa Escola não há Shukke, há o Tokudô (Ordenação Plena). A palavra Shukke em japonês (pravrajyaa em sânscrito) escreve-se com os Kanji ‘sair’ e ‘casa, clã, família’, ou seja significa deixar o lar, a família, os valores mundanos para tornar-se um monge budista, seguindo o exemplo do Buda Shakyamuni.

O próprio Mestre Shinran se autodenominava “Hizô Hizoku” 非僧非 ‘nem monge, nem leigo’, e sua história de vida ilustra muito bem o que o levou a tomar esta postura.  
Desta maneira, ao tomarmos Refúgio nas Três Joias, comprometemo-nos em uma vez adentrado o Caminho e sendo aceitos como buscadores que todos somos, juramos seguir os Ensinamentos para beneficiar todos os seres viventes, até o final dos tempos.

Não importa se leigos ou ordenados, todos nós que fazemos parte de um Sangha, comprometemo-nos diante do Buda, do Dharma e do próprio Sangha a percorrer e buscar o Caminho do Despertar, da Iluminação. Na época do Buda Shakyamuni havia o conceito literal de “abandonar o lar” pois a vida de monge era incompatível com a vida familiar. E nós budistas do Shinshû, costumamos dizer que somos aqueles que vivem junto à sua comunidade, fazendo parte do dia-a-dia de sua sociedade, comprometendo-se com seus afazeres, envolvendo-se com seus problemas e cumprindo deveres de cidadão comum. Ao mesmo tempo que devemos levar conforto e consolo através dos Ensinamentos àqueles que buscam auxílio justamente no que se refere aos problemas e sofrimentos de suas vidas cotidianas e também digamos “espirituais”.

Ora, então tudo certo, diria você meu leitor! É só uma questão de equilibrar a vida mundana-familiar-profissional com a vida religiosa. É só compatibilizar as agendas: Nos dias úteis sou da empresa, do meu negócio, da minha família, do namorado(a), da faculdade, dos amigos, da Ong, do futebol, da cerveja, da praia, do pôquer, do curso de sommelier, do show, do teatro, do cinema, do aniversário da sobrinha, do batizado do primo, do bar-mitzvah, da formatura, da balada... enfim a lista é longa. E quando sobrar tempo... aí vou ao Oterá, ao Templo Budista. Ou seja, o Buda é só para quando ele subir no topo da lista de prioridades da nossa agitada vida mundana.

E eis que assistindo uma reprise da série Supernatural, deparo-me com o conflito do personagem Dean, o “caçador de fantasmas” tentando convencer-se de que seu trabalho é mais importante que sua vida amorosa, que seu trabalho não permite amar, ser amado, ter uma família ou viver uma vida normal. E com a frase acima com que inicio essa reflexão, o personagem convence-se em continuar no seu caminho.
Antes que alguém critique dizendo que eu não posso comparar a vida de um fictício ‘caça-fantasmas’ com a de alguém que se propôs a dedicar sua vida para ensinar o Dharma e que muito menos o amor pode “ferrar” com a vida de alguém, eu aconselharia a repensar como é a vida de alguém que se ordenou lá no Goei-Dô (Pavilhão do Mestre), reverenciando três vezes até o chão, postando-se diante da imagem do Mestre Shinran, compromissando-se com a Ordem.

É uma vida em que participar de um seminário com um professor vindo do Japão é mais interessante que passear com a família. Que ir para o Templo no final de semana para ajudar nos ofícios é mais empolgante que o encontro anual dos colegas da faculdade. Que uma reunião de estudos ou mesmo administrativa é mais essencial que o café com os amigos da escola. Que viajar a noite inteira para ministrar uma palestra no dia seguinte em algum distante Templo é mais necessário que o fim de semana no Spa. Que uma viagem para o Japão para participar de um curso é mais relevante que a viagem de férias para New York. Que você dentro do Budismo, para os fiéis é mais imprescindível que a carência por você da sua família. É você ausente, distante, desinteressado, é ser aquele que abandona, se desapega e se ausenta do convívio da família e dos amigos em detrimento da sua busca pelo Despertar (Satori). É ser tomado pela necessidade de buscar a Iluminação, sua e de outros. É priorizar seus estudos, é deixar de lado os livros de ficção e romance para ler sobre Budismo. É buscar sites de Budismo em vez de simplesmente navegar na Internet a esmo. É ir dormir com o Buda para com ele acordar.

O Budismo é compromisso é dedicação é sacrifício. Exige seu sangue, seu suor e suas lágrimas. Se isso tudo encaixa-se no seu conceito de “ferrar” a vida de alguém que você ama, seja bem-vindo, você está “ferrado”. Pois para nós ordenados no Budismo Shin, pode não haver Shukke, mas é Tokudô, que significa obter a travessia, adentrar no Caminho para a Outra Margem (Terra Pura), seguindo os Ensinamentos do Mestre Shinran e propagando o Dharma.


E sim, matamos ‘fantasmas’ sim. O nosso fantasma interior que nada mais é do que a nossa ilusória consciência que insiste em nos perseguir com dicotomias, contradições e escolhas.


Sayuri Tyô Jun
Tokudô-Shiki 2013

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