18/11/2015

Palestra do Rev. Shu Izuhara para o Rito de Hoonko do Templo Apucarana Nambei Honganji (15 de novembro de 2015)





Boa tarde a todos, gostaria de iniciar minha palestra com a recitação do Tiçarana (Tríplice Refúgio):

“Difícil é obter o nascimento na condição humana e agora, estou nela vivendo.
Raro é ter a oportunidade de escutar o Dharma do Buda e agora, a mim é dado conhecê-lo.
Se não alcançar nesta mesma vida a total libertação, em que outra vida poderia alcançá-la?
Portanto, juntamente com todos os seres viventes, busco reverentemente, tomar refúgio na Tríplice Joia do Budismo.
Todos: Eu tomo refúgio no Buda, o Iluminado!
Que eu possa, juntamente com todos os seres viventes, realizar o Grande Caminho e manifestar a Mente Incomparável.
Eu tomo refúgio no Dharma, a Doutrina que conduz à Iluminação!
Que eu possa, juntamente com todos os seres viventes, mergulhar nas profundezes do Ensinamento e obter a Sabedoria, vasta como os oceanos.
Eu tomo refúgio no Sangha, a Comunidade!
Que eu possa, juntamente com todos os seres viventes, viver em harmonia com o espírito de fraternidade e livre da escravidão do egoísmo.
O Dharma, incomparavelmente profundo e precioso, é raramente encontrado mesmo em centenas de ciclos universais. A mim, agora, é facultado vê-lo, escutá-lo e guarda-lo. Possa eu, verdadeiramente ser alcançado pelo poder das palavras do Tathagata”.

Gostaria de agradecer o convite de participar deste Rito de Hoonko, e nesta oportunidade vim de Marília, distante 230 Km daqui, juntamente com mais 3 pessoas do meu Templo.
Meu nome é Shu Izuhara, muitos aqui no Brasil estranham o nome “Shu”, e inevitavelmente ocorrem os trocadilhos com a palavra “chuchu” (rsrsr).
Em Kanji meus sobrenome se escreve: 泉原, o primeiro Kanji lê-se “Izumi”, significa “fonte”, é a leitura mais usual e muitos japoneses leem errado e pronunciam “Izumihara” em vez de “Izuhara”. Já o meu nome Shu se escreve: que significa bom, benéfico. Eu particularmente gosto muito do meu nome.
Já estou há 8 anos no Brasil, sendo que nos primeiros 6 anos trabalhei no nosso Betsuin, o Templo Matriz de São Paulo e há 2 anos estou à frente do Templo de Marília no estado de São Paulo.

O que pude perceber nestes 2 anos em Marília, é a diferença entre viver numa capital e viver no interior. E como o Brasil é vasto! E fico maravilhado com o fato de poder encontrar facilmente comida japonesa, pois no interior as comunidades Nikkey mantêm a tradição fazendo tôfu e missô por exemplo. Hoje em dia posso afirmar que entre viver numa cidade grande e viver no interior, eu prefiro a tranquilidade do interior. Embora em São Paulo eu tenha muitos amigos, e viva sozinho em Marília, no interior é muito mais fácil de se viver.
No templo de Marília, toda sexta-feira há uma reunião do nosso grupo de Karaokê. O que movimenta bastante nosso Templo. E nos fins de semana, sempre em algum lugar ocorre um campeonato ou Karaokê-Taikai. Eu tenho 48 anos de idade, e são poucos os da minha categoria, não que eu cante bem, mas acho muito interessante como a música, o cantar mexe conosco, pois precisamos usar a cabeça, decorando a letra e claro treinar a voz também. De início, eu ficava meio tímido, mas as pessoas sempre me convidavam e com isso conheci vários lugares e várias pessoas. Tudo graças ao Karaokê. E por uma feliz graça pude esses dias atrás, reencontrar o professor de Karaokê do Betsuin.
Bem, hoje também gostaria de falar-lhes sobre o Mestre Genshin 源信僧都 (源信大師、源信和尚). O Mestre Genshin é um dos Patriarcas da nossa Escola, ele está retratado no Kakejiku no altar lateral da direita de quem olha, ele é o que está na parte inferior à esquerda.
O Mestre Genshin nasceu em Nara, perto de Kyoto, cheia de Templos budistas e muitos de vocês já devem conhecer. Eu adoro o tsukemono de lá, o “Narazuke”. Em Nara a maioria dos templos foi construída por ordem do Príncipe Shôtoku (o célebre regente patrono do Budismo e o instituidor da primeira Constituição do Japão, a Constituição de 17 Artigos), e um ótimo governante que trouxe muito progresso ao Japão. Mestre Genshin não era nascido em Templo, há uma passagem famosa de sua vida que é bastante conhecida. Aos 5 anos de idade, ele brincava à beira de um rio quando passou por ele um monge. Este monge que após comer seu “Bentô”, preparava-se para lavar no rio a caixa, o recipiente que continha sua refeição. O menino que observava, aconselha o monge a não lavar a caixa naquela parte do rio, pois na noite anterior havia chovido muito e a água estava muito turva, e indica a parte superior do rio, perto da nascente, onde a água era mais limpa. O monge despeitado pelo atrevimento, resolve dar uma lição de Budismo ao menino. E começa a dar um sermão sobre a mente discriminatória, que nós como seres humanos gostamos de discriminar tudo em aquilo que gostamos e desgostamos, o que é gostoso do que não é gostoso, conveniente e inconveniente, limpo e sujo.
O menino que ouviu atentamente o sermão do monge, pergunta-lhe: então para quê lavar a caixa? Se não devemos fazer diferença entre sujo e limpo?
O monge zangado que interpretou como atrevimento a resposta do menino, resolve então desafiá-lo: Você sabe contar até 10? O menino Genshin afirma que sim e contam juntos: “Hitotsu (1), futattsu (2), mittsu (3), yottsu (4), itsutsu (5), muttsu (6), nanatsu (7), yattsu (8), kokonotsu (9), tô (10)”.
O monge pergunta: todos esses números terminam em “tsu” mas porque só o 10 não termina com “tsu”?
Imediatamente o menino responde: É porque o 5 (itsutsu) pegou dois “tsu” para si e por isso o 10 ficou sem nenhum “tsu”.
Vencido, o monge reconheceu a inteligência do menino e achou que seria um desperdício não desenvolver essa inteligência e resolve pedir à mãe do menino, que o ceda ao Templo Hiezan, e deixe-o tornar-se monge, onde poderá ter acesso aos estudos. A mãe, apesar de ficar triste com a separação, consente, pois nessa época os monges retiravam-se para as montanhas e nunca mais viam seus familiares. Mas como tornar-se monge significa ajudar as pessoas, ser útil para a comunidade de fiéis, a mãe resolve permitir que seu filho instrua-se como monge.

Alguns anos mais tarde, o menino torna-se conhecido como “Genshin do Hieizan”, um monge famoso pela sua inteligência e muito reconhecido pelas suas pregações.
Sua fama permitiu que aos 15 anos tivesse o privilégio de falar diante do Imperador, que muito satisfeito, presenteou Genshin com donativos e presentes.
Feliz, Genshin escreve uma carta à sua mãe e manda-lhe todos os presentes que recebeu do Imperador. Sua mãe responde-lhe devolvendo todos os presentes, dizendo que ficou muito infeliz com o orgulho do filho. Que ela o mandara ao templo para tornar-se uma pessoa disposta a ajudar os outros. Ela termina dizendo que antes de sentir orgulho por ter sido elogiado pelo Imperador, que ele seja digno de ser elogiado por suas ações pelo Buda. E envia ao filho um poema escrito por ela mesma:
 
後の世を渡す橋とぞ思いしに (Noti no yo wo watasu hashi tozo omoishini)
世を渡る僧となるぞ悲しき。(yo wo wataru sô to naruzo kanashiki)
“Sê como uma ponte que liga os seres perdidos deste mundo à Terra Pura do Buda, assim eu almejava. Tristeza por ter-te tornado apenas um monge que perpassa pela vida mundana.”

Profundamente abalado com a resposta de sua mãe, Mestre Genshin aos 25 anos, refaz todo seu (Shugyô) treinamento, querendo tornar-se o monge útil que a mãe esperava. E após 40 anos, Mestre Genshin encontra-se com os Ensinamentos do Jôdo e dedica-se a ensinar e viver estes Ensinamentos, vindo a tornar-se mais tarde, um dos 7 Patriarcas da nossa Ordem.
O Mestre Shinran no Shoshingê exalta o Mestre Genshin como aquele que nos deixou como ensinamento que apesar de não percebermos e vivermos na sombra do desconhecimento, somos constantemente iluminados pela Luz de Sabedoria do Buda, que o Buda emite uma Luz de salvação para todos nós.
Mestre Genshin, não pôde reencontrar-se pessoalmente com a mãe antes que ela morresse e não pôde transmitir-lhe esses Ensinamentos, mas ele sempre foi muito grato à ela por tê-lo repreendido por sua vaidade. Um Mestre que foi elogiado pelo Imperador, mas não admirado pela própria mãe.

Nos Wasan, afirma-se que nossas Paixões Mundanas (Bonnô) são como amarras que prendem nosso corpo e que nossos olhos não veem, mas a Compaixão do Buda é como amor de pai e mãe, uma Luz que não enxergamos mas que nos ilumina sempre.
Portanto nossa expressão de agradecimento (Ho On) é o Namu Amida Butsu.

Vamos ver agora dois Kanji muito parecidos na escrita: 幸せ (shiawase - felicidade) 辛い (tsurai – penoso, sofrido). A única diferença entre esses dois Kanji é um traço a mais em shiawase. Por isso temos que nos tornar esse traço, que transforma sofrimento em felicidade. Em chinês clássico esses dois ideogramas, representavam algemas. Ou seja, quando nos libertamos das algemas, somos livres e ficamos felizes. Shiawase também pode ser escrito: 仕合せ, o verbo tsukaeru 仕える significa servir, de onde vem também o verbo shitateru 仕立る (costurar). Reunir serviços, ou unir forças traz a felicidade. Assim como uma única linha é fraca, uma junção de linhas entrelaçadas formam o tecido. Do que uma única linha, quando trançadas em forma de trama do tecido, a união de inúmeras linhas, é que resulta em felicidade.

Eu costumo cantar uma música que se chama (ito – linha)

なぜ めぐり逢うのかを  Porque será que nós nos encontramos
私たちは なにも知らない Nós não sabemos nada
いつ めぐり逢うのかを Quando nos encontraremos?
私たちは いつも知らない Nós nunca sabemos.

どこにいたの 生きてきたの Onde estava? Como veio vivendo?
遠い空の下 ふたつの物語 Debaixo de um céu distante, duas histórias.

縦の糸はあなた 横の糸は私 A linha horizontal é você, a linha vertical sou eu
織りなす布は いつか誰かを O tecido tramado, um dia alguém
暖めうるかもしれない pode ser que aqueça.


なぜ 生きてゆくのかを Porque vivemos?
迷った日の跡の ささくれ  Vestígios de um dia que nos sentimos perdidos, com o coração agitado
夢追いかけ走って Corremos perseguindo nossos sonhos
ころんだ日の跡の ささく Vestígios de um dia que tropeçamos, agitados.

こんな糸が なんになるの Uma linha, para que serve?
心許(もと)なくて ふるえてた嵐の中 Desassossegados, em meio à tempestades

縦の糸はあなた 横の糸は私A linha horizontal é você, a linha vertical sou eu
織りなす布は いつか誰かのO tecido tramado, um dia
傷をかばうかもしれない pode cobrir os ferimentos de alguém.

縦の糸はあなた 横の糸は私A linha horizontal é você, a linha vertical sou eu
逢うべき糸に 出逢えることを A linha que costura, é que promove o encontro
人は 仕合わせと呼びます A isso as pessoas chamam de reunir esforços = felicidade.

E porque nascemos? Porque vivemos? Nossa vida é feita de vários encontros, linhas que se entrelaçam formando um tecido. Um fio único é frágil, mas vários fios formam um tecido, um tecido resistente, forte, são vários encontros.

No Budismo existe um importante ensinamento que é o Engi (Elos de Originação Interdependente). Quando eu era criança nunca que imaginara um dia viver no distante Brasil. E cá estou hoje aqui, pelo resultado de inúmeras circunstâncias e acontecimentos que resultaram em poder estar hoje aqui com vocês. Encontrar-me com inúmeras pessoas, deparar com fatos bons e claro, também ruins como levar bronca de vez em quando. Mas nós levamos nossas vidas assim, classificando de bom ou mau dependendo da nossa conveniência. A felicidade nossa, depende das nossas conveniências, pois somos felizes quando as coisas ocorrem do jeito que queremos, e ficamos infelizes quando as coisas não correm como desejamos. Mas o Buda Amida nos ilumina assim mesmo, mesmo que nós continuemos a viver no escuro, à sombra, discriminando o bom do ruim, para o Buda não faz diferença. Esse é o ponto primordial do ensinamento do Jodo Shinshû.

Desta maneira, gostaria de novamente ter a oportunidade de me encontrar com vocês em Marília também. Termino aqui lembrando a Água das 8 Virtudes que tem 8 pontes interligadas, e destas pontes temos que enxergar que as águas devem sempre correr, estar em movimento, devem sempre passar sob as pontes, pois água parada apodrece. E as águas do Jôdo são sempre limpas e puras.
O Brasil é amplo e diverso, nos proporciona incontáveis encontros, devemos assim nos tornar um tecido forte!

Obrigado pela atenção de todos.

(Versão: Sayuri Tyô Jun)

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