07/03/2017

A Recitação (Shômyô) no Budismo Shin, Ordem Otani 真宗大谷派の声明とは


Texto: Rev. Kôjun Sugao (Superior do Templo Kômyô-Ji, prefeitura de Kyôto)
Tradução e Notas: Sayuri Tyō Jun
Jornal Nagoya Gobô – vol. 607, fevereiro de 2017, p. 03

     Não se trata apenas de um item de ornamentação do Altar, tanto a voz na recitação dos Ritos, assim como o coração daqueles que realizam os serviços litúrgicos, tudo isso é a representação da herança ininterrupta do Nembutsu que nós herdamos.

As origens da recitação da Ordem Otani

     Sobre a Ação de Graças (Hô On Kô), o Mestre Kaku-Nyô [1] escreveu em sua obra Gaijashô [2]:

“O que é essencial para estabelecer a linhagem, no entanto, é estabelecer o momento da convicção em que se obteve o ‘Shingyô’ [3] -  a Fé do Outro Poder para o Nascimento na Terra Pura. Como também para demonstrar a relação respeitosa entre o mestre e o discípulo e para expressar até exaurir-se toda nossa gratidão à benevolência do Buda.” (Seiten – p. 677)

     Os Ritos de Hô On kô (Ação de Graças em Memória do Mestre Shinran) exprimem a nossa gratidão a começar, ao Mestre Shinran e todos os demais Mestres que sucederam a tradição, ou seja, a ação de graças é o oferecimento de nossa gratidão à benevolência do Buda. Na nossa matriz Higashi Honganji, em Kyôto, todos os anos é celebrado durante 8 dias, os Ritos de Hô On Kô, é a herança do Nembutsu, a qual todos nós sucedemos.
     O Mestre Shinran foi criado dentro da Escola Tendai, recebeu a doutrinação do Mestre Jien [4] e herdou a liturgia da Escola Tendai. O sistema litúrgico budista do Japão foi estabelecido após o retorno dos Mestres Saichô [5], Kûkai [6] e Ennin [7] do país de Tang na China no período compreendido entre 804 a 838.  Devido aos esforços destes mestres, estabeleceu-se a liturgia como ofício.
     Historicamente, a Liturgia da Escola Tendai foi estabelecida pelo Mestre Jikaku Daishi (Ennin). No início a liturgia era passada por transmissão oral, mas cerca de 200 anos após Ennin, o Mestre Ryônin (1073-1132) foi quem codificou e definiu os símbolos e marcações das partituras litúrgicas. Nessa época se estabeleceram os chamados Doutores em Liturgia (Fushi-Hakase [8]) que definiram a melodia e entonação das recitações. 
     Logo depois, os Mestres Hônen e Shinran herdaram a Liturgia da Escola Tendai.
Na Escola Jôdo Shinshû, foi o Mestre Rennyo quem formalizou os ofícios, mantendo as fórmulas consagradas anteriormente, acrescentando ainda a recitação do Shoshingê, o Nembutsu e os 3 volumes de Wasan. Essa sistematização da liturgia foi promulgada em março de 1474 (Regulamentos sobre a Ritualística do Honganji). Depois, a Escola Shinshû, na época do mandato do 12º Grão Mestre, Kyônyo Shônin, foi dividida em Nishi e Higashi Honganji. Após a separação, a Ordem Otani passou a transmitir os usos e costumes determinados pelo Mestre Rennyo, enquanto o Honganji-ha (Nishi Honganji) na época do 14º Grão Mestre, Jakunyo Shônin, adotou um sistema próprio de liturgia num estilo mais parecido com o dos Mestres da Escola Tendai.

Os sons das cinco notas musicais harmonizam-se naturalmente com todos os sons.

     Para a nossa Escola Shinshû Otani-ha, a ritualística se presta a reverenciar o Buda e os Mestres, a recitar os fundamentos da doutrina e os ensinamentos do Buda Shakyamuni e louvar de todo coração as Graças recebidas do Buda Amida. Ou seja, a execução da cerimônia, origina-se na Doutrina, ocorrendo dentro do conjunto de ornamentos do altar. Os ornamentos referem-se aos “Ornamentos da Terra Pura”, que são a manifestação da própria Doutrina. Tanto os ritos e cerimônias como a recitação e a etiqueta litúrgica, têm que estar em conformidade com a lógica e a razão.
     Dentro dos Wasan do Mestre Shinran, encontramos o seguinte:
“Quando a pura brisa sopra entre as árvores de joias, produzindo os sons das cinco notas musicais, cada um se harmoniza naturalmente com os outros. Reverenciemos Amida que é o Puro e Meritório Ser.”
(Shinshû Seiten p. 482)
     Sopra um vento puro dentro da imensa e imensurável floresta da Terra Pura, neste momento, o som do farfalhar das folhas de tantas árvores, o canto dos pássaros, nós recebemos todos estes sons como sendo a voz do Buda. E esse som naturalmente puro, revela-nos o mundo da harmonia. Ou seja, é a voz límpida do Buda, que de um lugar que ultrapassa nossos corações desarmônicos, nos unifica harmonicamente, e este mundo é onde todos os sons se harmonizam naturalmente. 

Todos os Ornamentos do Altar proferem o Dharma
  
     Nas palavras do Rev. Daiei Kaneko: “Quando os objetos se movimentam, provocam sons, mas o movimento do coração também causa sons”. Quem ler estas palavras sem conhecer o coração contido nos Wasan ou o esforço do Mestre Shinran em compô-las, estas não surtem nenhum efeito em quem as escuta. Rev. Kaneko ainda nos indica que para o Shômyô (recitação) existem 8 tipos de sons. O volume dois do Grande Sutra da Vida Imensurável cita as 8 sonoridades maravilhosas que ecoam e se expandem (Seiten p. 48). Para estes 8 sons, existem 12 peculiaridades, que são: pureza, causar boa sensação aos ouvidos, aliviar o coração, ser adorável, suave, fascinante, confortante, não contrariar os ouvidos, ser extraordinariamente sossegado, provocar o vazio absoluto, profundo e fácil de ouvir. Essas são as características dos 8 sons. São chamadas de Voz Límpida ou ainda de Bon-on [9].
     Isso tudo é a Voz do Buda. O Rev. Kaneko reagia de forma muito estimulante a este assunto, dizia que seria tão bom se realmente tal voz pudesse ser emitida.
     Dentro das considerações sobre o Shômyô (Śabda-vidyā) do Buda Shakyamuni [10], tanto aquele que recita como aquele que ouve a recitação, juntos enriquecem o corpo e a mente. Esta é a virtude chamada de voz humana, penso que é a virtude com que se deve entoar a recitação. A recitação é um ornamento fundamentado na Doutrina, ela e os estudos não são coisas distintas, são inseparáveis. Gostaria que a recitação fosse realizada levando-se em conta tudo isso.
     Existe uma frase do Rev. Kensho Seo que diz: “Todos os Ornamentos do Altar proferem o Dharma” (Revista Dôbô Bukkyô, n. 318). Não só os ornamentos, mas também a voz nos serviços litúrgicos, assim como o coração daqueles que servem nos ritos, todos juntos sucederam em herança ininterrupta, o Nembutsu. Tocados por esses aspectos da forma, a voz e os movimentos, abre-se diante de nossos olhos o Mundo Imensurável do Tathagata, surge a lembrança do Gyakushin [11] “A Fé recebida através do Voto Original de Amida”. Deste modo, a ritualística, como os ornamentos do altar, assim como a recitação, são unos, tornam-se unificados.  É desejável que o serviço litúrgico seja realizado normalmente sempre com o coração voltado para a expressão “Todos os Ornamentos do Altar proferem o Dharma”.
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Notas da tradutora:
[1] 覚如上人 Kaku-Nyo Shônin (1271-1351), bisneto do Mestre Shinran.

[2] 改邪鈔 Gaijashô – Tratado sobre a Reconsideração do Mau. Escrito 6 anos após o Kudenshô.

[3] 心行Shingyô – Refere-se ao 安心 Anjin (firme estabelecimento da correta obtenção da Verdadeira Fé - Shinjin) e 起行 Kigyô (realização da prática correta do Nembutsu).

[4] 慈円僧正 Jien Sôjô: 1155 – 1225. Escreveu o tratado 愚管 (Gukanshô). Mestre Shinran, aos 9 anos de idade (1181), recebeu a Ordenação através do Mestre Jien.

[5] 最澄 Saichô: Mestre Dengyô Daishi, fundador da Escola Tendai do Japão. 767-822.

[6] 空海 Kûkai: Mestre Kôbô Daishi, fundador da Escola Shingon. 774-835.

[7] 円仁 Ennin: Terceiro Grão-Mestre da Escola Tendai, também chamado Jikaku Daishi. 794-864.

[8] 節博士 Fushi-Hakase: Os primeiros registros sobre doutores acadêmicos constam no Nihon Shôki, indicando estudiosos da península coreana da antiga região de Kudara (Baekje), que transmitiram os preceitos dos 5 Livros Clássicos do Confucionismo (Clássico de Política, Clássico de Poesia, Livro dos Ritos, Anais da Primavera e Outono e o Livro das Mutações). No Budismo, a recitação é considerada uma categoria da música, e a partitura das recitações é chamada de Hakase, assim como as marcações de pontos e traços das escalas tonais melódicas das recitações. O Goin-hakase 五音博 são as notações da tonalidade da escala pentatônica clássica: (kyû), (shô), (kaku), (ti) e (u). E o chamado Meyasu-hakase 目安博 que são as notações melódicas. Os estudiosos que emitiam e transmitiam corretamente as recitações pentatônicas, passaram a ser modelos e chamados de doutores. Segundo o Clássico de Poesia, o som tem o poder de tranquilizar, alegrar e harmonizar. A música tanto pode alegrar quanto entristecer. A música alegre harmoniza o reino e a música triste arruína o reino. Para o Budismo, a vocalização pura e elegante dos Ensinamentos contidos nos Sutras, a recitação bela e harmoniosa dos Wasan, permite a abertura de um mundo de sintonia entre o Buda e nós. E ainda, de acordo com os Sutras, a Terra Pura é permeada constantemente de música maravilhosa. (Fonte: site da Universidade Otani)

[9] 梵音 Bon-on: A Voz do Buda ou de Brahma. Hinos entoados nas cerimônias com Sange 散華 (lançamento de pétalas de flores de lótus). Recitação de Sutras. Música budista. Pronúncia e transliteração do sânscrito para o japonês.

[10] 声明 Shômyô: Um dos 5 ramos do Gomyô 五明 da ciência indiana: 1) Shômyô 声明, linguística, gramática, palavra; 2) Immyô 因明 lógica; 3) Naimyô 内明 estudos internos; 4) Ihômyô 医方明 medicina; 5) Kugyômyô 工巧明 artes e matemática.

[11] 獲信 Gyakushin: A Fé Recebida (Shôshinge – Gongyô-Shu p.33)


Honzan - Ritos de Hô On Kô 2016
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真宗大谷派の声明とは

菅生考純氏(すがおこうじゅん) 京都府・光明寺住職

名古屋御坊 2017年2月 607号

荘厳だけではなく、お勤めされる声も、お給仕をされる方の心も、全てが脈々と続いたお念仏の相読であります。

大谷派の声明の源流

     まず報恩講ということにつきましては、覚如上人の『改邪鈔(がいじゃしょう)』に
血脈をたつる肝要(かんよう)は、往生浄土の他力の心行(しんぎょう)を獲得(ぎゃくとく)する時節を治定(じじょう)せしめて、かつは師資(しし)の礼(れい)をしらしめ、かつは仏恩を報尽(ほうじん)せんがためなり 

『真宗聖典』六七七頁

とあり、親鸞聖人をはじめ諸師への恩、すなわち仏恩を報ずるのが報恩講であると述べられております。東本願寺におきましては、七昼八日間の報恩講の法要が毎年勤められており、お念仏の相続がされております。
     親鸞聖人は天台に育ち、慈円僧正(じえんそうじょう)の教化を受けられて天台声明を継承されております。日本の声明は、最澄、空海、円仁(えんにん)といった方々が、唐より帰国(804~838)した後、大いに声明に尽力され声明業の職を定められました。
     天台声明につきましては、慈覚大師円仁に始まるとされております。当初は口伝で継承されてきましたが、円仁から二00年ほどのちに良忍(1073~1132)が出されて、節博士(ふしはかせ)、小博士、目安博士と称して節符(せっぷ)を符(つ)けられたのであります。その後、法然上人や親鸞聖人が天台声明を継承されました。
     浄土真宗においては、蓮如上人が、蓮如上人以前の勤行の形を残しながら「正信偈」に「念仏」「三帖和讃」を加えた四帖として開板され、勤行式を一四七四年三月に制定されました(『本願寺作法之次第』)。その後、真宗教団は第十二世教如(きょうにょ)上人の頃に東西本願寺に分派し、分派後大谷派は蓮如上人以来の故実(こじつ)を伝え、本願寺派は第十四世寂如(じゃくにょ)上人の時に、天台の声明師により独自の声明を別立されました。

宮商和して自然なり
  
     真宗大谷派において法要式は仏祖を礼拝し、所依の聖教を読誦し、仏恩を讃嘆して報恩の誠を尽くす儀式であります。即ち、儀式の執行は教義に基づいた荘厳の中でなされるものでありますが、荘厳とは「浄土の荘厳」という言葉が示す通り、教義そのものであります。その儀式は、声明にしても作法にしても、理にかなったものでなければなりません
親鸞聖人の御和讃の中に

            清風宝樹(しょうふうほうじゅ)をふくときは

            いつつの音声(おんじょう)いだしつつ

            宮商和(きゅうしょうわ)して自然(じねん)なり

            清浄勲(しょうじょうくん)を礼すべし

            (真宗聖典四八二頁)
とあります。図り知れないくらい広大な浄土の林の中を清い風が吹き抜け、その時のいろいろな木々のふれあいの音や、鳥たちの声、そいった音そのものを仏の声としていただくのです。自然の澄み切った音が「和」という世界を示してくださるのです。即ち清徹(しょうてつ)の声、仏の声が、和合しない我々の心を超えたところで一つに和合する、その世界が「宮商和して自然なり」なのです。

一切荘厳皆説法 
     
金子大榮先生のお言葉に、「物が動けば音がするが、心が動いても音がする」とあります。御和讃のこころや聖人の御苦労を知らないでそれを詠んでも、聞いている人には伝わりません。金子先生はまた、声明には八つの音があると指摘されています。『大無量寿経』下巻に「八音暢妙響(はっとんちょうみょうこう)(『真宗聖典』四八頁)とありますが、この八つの音には十二の特徴があります。それは、清らかであり、耳に心地よく、心を癒す。愛らしく、甘美であり、魅力的であり、気持ちよく、耳に逆らわない。不思議なほど静かで、無心であって、深みを帯び、聞き取りやすい、こういった音であります。この声を清徹の声と呼び、また梵音(ぼんおん)とも呼びます。
     これは仏の声であります。金子先生はこれを非常に官能的に受け止めておられまして、実際にそういった声が出たらよいのにとおっしゃっています。釈尊の声明論の中に、声明を唱えているものも聴聞しているものも、共に心身豊かになると示されております。この徳が音声(おんじょう)であり、この音声をもって声明が唱えられればと思います。声明は教義に基づいたお荘厳であり、声明と教学は別々のものではなく一体不離のものであります。そういう思いでお声明をしていただければと思います。
     「一切荘厳皆説法(いっさいしょうごんかいせっぽう)」という言葉がございます。(瀬尾顕證『同朋仏教』第三十八号)。荘厳だけでなく、お勤めされる声も、お給仕をされる方の心も、全てが脈々と続いたお念仏の相続であります。その姿、声、動きに触れることで、図り知れない如来の世界が現前し、獲信の思いが出てくる、それこそが儀式も荘厳も声明もすべて一つのものであります。「一切荘厳皆説法」を常に心して、お勤めを致したいものであります。
Honzan - Ritos de Hô On Kô 2016

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