25/05/2020

Liturgia como Dô 道 e Arte


Sua Luz sobrepuja o brilho do Sol e da Lua.

Ele é chamado “Aquele que Transcende a luz do Sol e Lua”.

Até mesmo Shakyamuni não pôde louvá-lo suficientemente.

Tomai refúgio no Ser Inigualável.


Shinran Shônin (Jôdo Wasan – Hinos de Louvor à Terra Pura)



Liturgia, é o conjunto de fundamentos e práticas religiosas, ou seja, são os ritos e cerimônias de uma escola religiosa.

O significado de liturgia tem origem na palavra leitourgia, entendido como “função em serviço público”. No latim, a escrita e significado são englobados no conceito eclesiástico, ou seja, diz respeito à “liturgia como serviço da missa”. Portanto a palavra liturgia nos remete pela tradição católica ocidental, à Missa.

A ideia de “serviço religioso” também se apresenta em japonês em palavras como Gongyô 勤行 (serviço religioso budista), Otsutome お勤め (rito, cerimônia), que grafado sem prefixo honorífico (o), significa dever, obrigação, ocupação, trabalho, emprego, e que deriva o verbo Tsutomeru 勤める(trabalhar, cumprir, desempenhar).

No caso da nossa Escola Jôdo Shinshû, a liturgia consiste no Gishiki Sahou 儀式作法 (regras normativas dos rituais, cerimônias, etiqueta ritualística), Shômyô Sahô 声明作法 (recitação, segundo prof. Ricardo Mário Gonçalves, é a tradução sino-japonesa do termo sânscrito Sabda-vidya - ciência do som) e o Shôgon 荘厳 (ornamentos do Altar, oferecimentos, arranjo de flores, paramentos).

Nossa ritualística é de dupla expressão, ou seja, quando realizada, expressa não só os Ensinamentos como foram transmitidos pelo Buda Shakaymuni, assim como é a expressão da nossa gratidão pelo recebimento destes ensinamentos. É o louvor aos nossos Mestres e linhagem ancestral.  A entonação dos Sutras é a repetição das palavras do Buda, a expansão do Dharma, do Ensinamento através do Samgha.

Em uma cerimônia num templo, o altar que é a representação da Terra Pura, é adornado com flores, velas, incenso e oferecimentos.

A recitação, repleta de normas e detalhes refinados, exige treinamento árduo transmitido por um Mestre pleno.

Entenda-se por Shôgon (Ornamentos) todos os itens do altar como as peças e utensílios, o arranjo de flores cuja técnica é chamada de Bukka 仏華, uma arte Ikebana, também considerada uma das especialidades aprendidas com um Mestre. E os Ministros do Dharma com seus paramentos que emprestam sua voz ao próprio Buda, tomando assento no trono de lótus de um Bodhisattva.

Portanto, o altar onde o Buda Amida está entronizado, como sendo reflexo da Terra Pura, exige que todos os elementos sejam exaustivamente trabalhados. Tanto o Gishiki (ritualística) como o Shômyô (recitação) imprimem muita formalidade, por isso são acompanhados da palavra Sahô (etiqueta, as boas maneiras). Assim, podemos considerar o conjunto que compõe uma cerimônia Jôdo Shinshû: Gishiki Sahô, Shômyô Sahô e Shôgon, realizados pelos seus Ministros do Dharma é considerado Dô (Caminho), uma arte, cuja expressão exige a dedicação que um artista dedica a um espetáculo a ser encenado. E como arte, nunca será perfeita, por isso é um caminho, assim como o próprio Budismo = Butsudô 仏道, Caminho do Buda.

Em casa, diante do seu Butsudan, ou Gohonzon, realize e ofereça o que você sabe e pode, de coração e antes de tudo, seja grato. Essa é a sua via, o Caminho do fiel. Não importa que você não saiba recitar tudo ou tão bem, pois a perfeição, como seres plenos de paixões mundanas que somos, não nos cabe. Pergunte a um grande cantor lírico após sua apresentação, se ele conseguiu atingir a perfeição na sua performance. Excluindo-se os falsos modestos, provavelmente ele dirá que não. Mas ele se esforça a cada espetáculo. Esse é o Caminho. E nosso Caminho é o de louvar Amida, mesmo sabendo que tudo que fizermos para expressar nossa gratidão, será infinitamente insuficiente.


Sayuri Tyō Jun


22/05/2020

Capítulo 3 Parte III – Hongan - O Voto Original segundo o “Sutra da Vida Imensurável proferido pelo Buda” 『仏説無量寿経』における本願

Texto: Rev. Futoshi Takehashi 
Tradutora: Sayuri Tyō Jun

      No Sutra da Vida Imensurável, através do encontro de Hôzô Bosatsu (Bodhisattva Dharmakara) e o Buda Sejizai-ô (Buda Lokesvara-Raja), é proferido o Voto Universal de Hôzô (Dharmakara), ou seja, o Voto Original do Buda Amida. Antes da construção dos 48 Votos, o seguinte Voto é declarado:
      “Eu despertei o coração que busca obter o Correto Satori (Iluminação) da Impermanência. Ó Buda, por favor, exponha-me seus Ensinamentos. Eu os praticarei, recebendo as maravilhas dos inumeráveis Países Búdicos, completarei minha própria Terra Pura, ornamentando-a para imediatamente obter o Correto Satori e eliminar a causa de todos os sofrimentos e também do nascimento-e-morte de todos os seres.” 

     A construção de um País Búdico para a salvação de todos os seres constitui o Voto Universal de Hôzô (Dharmakara). Ouvindo os vários Ensinamentos do Buda Sejizai-ô (Lokesvara-Raja), Hôzô (Dharmakara) meditou durante 5 Kalpas e assim fez a escolha dos seus 48 Votos. Essa particularidade, como afirmei há pouco, significa a abertura de sua própria Terra Búdica para guiar aqueles que ali nascerem por meio da recitação do Nembutsu, guiando todos rumo ao Parinirvana (Nirvana Absoluto). É exatamente neste sentido que é proferido na citação anterior do Shôshingê.

O texto referente ao Voto é descrito da seguinte maneira:
Décimo Oitavo Voto:
No momento em que me tornar um Buda, todos os seres viventes (das Dez Direções), que crerem e almejarem de todo coração, desejando nascer no meu País Búdico, que buscaram recitar meu nome, por dez vezes que seja. Se neste momento, por ventura não vierem a nascer no meu País, eu não me tornarei um Buda. Apenas aqueles que cometeram os Cinco Atos Hediondos[1] e difamarem o Correto Dharma, são excluídos.
Nota da tradutora: [1] Gogyaku 五逆, pancavici-karmani, a saber: Matar o pai, matar a mãe, matar um Arahat, ferir um Buda, causar desunião no Samgha.
Décimo Primeiro Voto:
  No momento em que me tornar um Buda, se no meu País, Devas e humanos não se encontrarem no Estado Firmemente Estabelecido – o Estado de Não-Retrocesso, que com certeza leva à completa realização do Nirvana, eu não me tornarei um Buda.
      Esta é uma resposta para a “Era sem Buda”. Como disse antes, o tema dos Sutras do Mahayana é: Como a salvação pode se realizar na era sem um Buda? Pois para tornar-se um Buda, era preciso encontrar-se com o Dharma que Shakyamuni se encontrou e assim tornar-se também um Buda. O que por sua vez, também originou a questão de como se encontrar com um Buda. A resposta segundo o “Sutra da Vida Imensurável” é apresentada como o realizar do Nembutsu para Ir-nascer na Terra Pura e tornar-se um Bodhisattva do Não-Retrocesso e finalmente, atingir o Parinirvana.
      Por exemplo, segundo o “Sutra Prajñāpāramitā”, encontrar-se com o Dharma, é o mesmo que encontrar-se com o Buda. Ou seja, a obtenção do Prajñāpāramitā (Sabedoria Transcendental) é a marca do Não-Retrocesso e também significa o encontro com o Buda. O “Sutra do Lótus” [1] concorda com o que é proferido no “Sutra Prajñāpāramitā” e no “Sutra da Vida Imensurável”, o que significa que verdadeiramente, é o Buda Shakyamuni como o Dharma em si que vive e trabalha no presente. Ou seja, os Sutras proferem que o Buda Shakyamuni está aqui presente, no agora. Dependendo do significado, podemos pensar que este é o ponto de destino final. Embora se diga que estamos na Era sem Buda, é porque a salvação de cada um de nós que vivemos neste mundo, torna-se a questão principal.
O “Sutra do Lótus”, proclama que o Buda Shakyamuni está aqui, agora, pregando o Dharma.
Nota do autor [1]: Comparando-se com os outros dois Sutras, o Sutra do Lótus é considerado o mais novo.
      De acordo com essa interpretação do “Sutra da Vida Imensurável”, considerada mais antiga e original, é declarado que se nasce onde o Buda está para tornar-se um Buda. Mas é necessário que a Salvação tenha significado para os seres que vivem agora, aqui neste mundo. Como venho mencionando desde anteriormente, o significado de se fazer uma promessa de Salvação, só faz sentido se for dirigido para mim que estou aqui e agora.
      De acordo com o “Sutra da Vida Imensurável”, diferentemente do “Sutra Prajñāpāramitā” e do “Sutra do Lótus”, é impossível a obtenção do Não-Retrocesso neste nosso mundo Saha. Porém, isto possui um significado muito maior, primeiramente, que o Caminho Búdico está assegurado, e isso está em conformidade com outros Sutras. No entanto, o outro ponto significa antes de tudo que a busca pelo Ir-Nascer (na Terra Pura), se desenvolve como um Caminho Búdico. Em outras palavras, significa o surgimento de um Caminho Búdico possível de ser praticado por qualquer pessoa.
Ou seja, mesmo aqueles que neste mundo não conseguem tornar-se um Bodhisattva do Não-Retrocesso, através do seu anseio de Ir-nascer (na Terra Pura), ou seja, pela recitação do Nembutsu, estar-lhe-á assegurado o Caminho Búdico. E através do Ir-Nascer na Terra Pura do Buda Amida, tornar-se-á um Bodhisattva do Não-Retrocesso, e poderá assim, obter o Parinirvana. Esta é a Força do Voto Original do Buda Amida trabalhando, ou seja, isso tornar-se possível através da Transferência de Méritos da Força do Voto Original.
      Isso causou mais uma transformação, a evolução do significado da palavra “Não-Retrocesso”. Os Bodhisattvas que expressavam as Virtudes do Bodhisattva Samantabhadra por si mesmos atingiam o Não-Retrocesso mas a partir deste desdobramento, todos os seres viventes que despertarem o coração para o Caminho Búdico, passam também a obter o Não-Retrocesso. Mesmo sendo a mesma palavra, passou a ser usada com conteúdos diferentes.
Essa foi uma questão levantada por Nāgārjuna [2] em sua obra Jûjûbibasharon [2]. O Não-Retrocesso referenciava o Bodhisattva que “Profere o Dharma”, aquele que obtêm a própria Iluminação para beneficiar a si mesmo e todos os seres viventes [3], tornando-se o Bodhisattva que assume a obra de um Buda que salva todos os seres viventes.
Nota do autor [2]: Ryûjû 龍樹, século 2 a 3, nascido na Índia.
Notas da tradutora: [2] 十住婆沙論 Daśabhūmi-vibhāṣā-śāstra, um comentário sobre os daśabhūmi (Dez Estágios, ou Dez Moradas de Brahma) do Avataṃsaka-sūtra (Sutra da Guirlanda de Flores) compilado por Nāgārjuna. Traduzido por Kumārajīva na Dinastia Ch’in Posterior, por volta do ano 405 em 15 fascículos e 35 capítulos. O capítulo 9º chamado de “Prática Fácil”, é muito estimado pelos Mestres da Terra Pura.
[3] Jiri-Rita 自利利他 Ver nota 10, cap.1 parte 2.
      De acordo com Nāgārjuna, o Estado de Não-Retrocesso passou a incluir aqueles que despertaram o coração para o Caminho Búdico, que se alegraram com o Dharma, que não recuaram do Caminho do Budismo, no sentido de que com toda certeza, depois conseguirá tornar-se de fato um Buda. Não se trata de qual é correto ou incorreto. É possível pensar que são duas manifestações: “Não-Retrocesso daquele que salva” e “Não-Retrocesso daquele que é salvo”. Que por sua vez se destacam em: “Transmissor do Dharma” e “Receptor do Dharma”.
      Vim discorrendo até agora, sobre o Voto Original segundo o” Sutra da Vida Imensurável”, e gostaria de discorrer agora sobre o Voto Universal do Bodhisattva e o Voto Original do Buda Amida segundo o “Tratado da Terra Pura” e “Comentários ao Tratado da Terra Pura” [4], corroborados pelo “Sutra da Vida Imensurável”.
Nota da tradutora [4]: Tratado da Terra Pura (Jôdo-ron 浄土論), escrito por Vasubandhu (Tenjin 天親, séc. 4, Índia).
Comentários ao Tratado da Terra Pura (Jôdo-ron Chû 浄土論註), escrito pelo Mestre T’an-luan (Donran 曇鸞, 476-542, China). 

 
Texto anterior: http://bonnogusoku.blogspot.com/2020/05/2-os-53-budas-historia-do-hongan-o-voto.html

Amida meditando por 5 kalpas

 
3 『仏説無量寿経』における本願

            法蔵菩薩と世自在王仏との出会いから、法蔵の誓願、つまり阿弥陀如来の本願が説かれる。四十八の願を建てる前の段階で次のような願が述べられる。
*私に無常の正しいさとりを得ようという心が発こりました。仏よ、私に教えを説いてください。私はそれを修行して、さまざまな仏の国の素晴らしいありさまを受け入れて、自らの清らかな国土を荘厳して完成させ、すぐに正しいさとりを得て、すべての者たちの生死や苦しみの原因をなくします。
            すべての者をすくうために国土を建立しようというのが法蔵の誓願である。これを受けてなされた世自在王仏のさまざまな教えを聞き、法蔵は五劫の間、思惟(しゆい)した。そこで選び取られたのが四十八の願である。その特徴は今述べたように、自ら仏土を開き、念仏することによってそこに生まれた者を滅度(めつど)(完全な涅槃)に導くということである。先の「正信偈」の引用がまさにそういう意味をもって説かれている。願文は次のとおりである。
          第十八の願
私が仏となるときには、一切の生きとし生けるもの(十方衆生)が心から信じねがって私の国土に生まれようと欲(おも)って、十回でも私の名を称えたとしよう。そのとき私の国土に生まれることがないのならば、私は仏とはならない。ただ五逆と正しい法を誹謗(ひぼう)したものは除く。
第十一の願
私が仏となるときには、私の国土の人や天人たちが正定聚(しょうじょうじゅ)・不退転となって必ず完全な涅槃にいたることがないのならば、私は仏とならない。
            これは「無仏」の時代に対する一つの応答である。先に述べたように大乗経典のテーマは、無仏のときにいかにしてすくいが成り立つかということである。それは釈尊の出会った法に出会い仏になってゆくという表現を生み出していったが、それはまた、どうやって仏に出会うかという問題としても表現されていた。それが『無量寿経』では、念仏して浄土に往生し、不退転の菩薩となり、ついには滅度にいたる表現されたのである。
            たとえば『般若経』は法そのものにあうことを、仏に会うこととして表現した。つまり、般若波羅蜜を得ることが不退転の印であって、仏と出会うことなのである。『法華経』<*他の二つの経典に比べて『法華経』の方が成立は新しいと考えられている。>はその『般若経』や『無量寿経』の説を受けて実は釈尊こそがここに生きてはたらく法そのものである、とするのである。つまり釈尊は今ここにいるのであると説く。ある意味ではこれは一つの到達点と言えると思う。無仏と言われているが、この世にいる我々のすくいが問題となっているからである。『法華経』は、今ここに釈尊がいて法を説いているのであると宣言したのである。
その意味では『無量寿経』はより原始的に、仏のいるところに生まれて成仏する、という表現をしいているが、そのすくいについての表現は、今この世界で生きるものに意味を持っているのでなくてはならない。先ほどから述べているように、すくいが約束されるということは、今ここにいる自分にしか意味を持たないからである。
            『無量寿経』によれば、『般若経』や『法華経』と違って、この娑婆世界では不退転になるということはありえない。しかし、そのことはもっと大きな意味を持っている。第一には、仏道が確保されたということである。それは他の経典とも共通である。しかし、もう一点は、それがまず往生を求める仏道として展開するということである。つまり、それはどのような者にも実践可能な仏道が現れたということである。
つまり不退転の菩薩にこの世でなることのできない者も、往生を願うことで、つまり念仏することで仏道が確保されるのである。そして阿弥陀仏の浄土へ往生することによって不退転の菩薩になり、滅度を得ることができるというのである。それは阿弥陀如来の本願力がはたらくこと、つまり本願力回向によって可能となるのである。
            そのことは、もう一つの変化をもたらした。「不退転」という言葉の意味が展開したのである。普賢の徳を自ら表現する菩薩たちが不退転とされていたが、仏道に心を発こした衆生が不退転とされるようになっていったのである。同じ言葉であるが違う内容を担って使われるようになっていったのである。
それは龍樹(りゅうじゅ)<*二~三世紀、南インド生まれ。>が『十住婆沙論じゅうじゅうびばしゃろん』で問題にしたことである。先の不退転は「説法」する自利利他の菩薩、仏が衆生をすくう事業を担う菩薩となるということであった。
            それが、龍樹においては、仏道にこころを発こし、仏法を喜んだ者が、仏道から退かない、後に必ず仏と成ることができるという意味で不退転と言われるようになっていった。どちらが正しくどちらが間違っているかということではない。「すくう者としての不退転」と「すくわれる者としての不退転」とが表現されていると考えることができるように思う。それはまた「法を表現する者」と「法がそこで表現されている者」という違いとして表現できるように思う。
            以上『無量寿経』に見られる本願を考えてきたが、それを受けた『浄土論』、『浄土論註』の阿弥陀如来の本願や菩薩の誓願について考えてみたい。