16/08/2020

A polêmica do 35º Voto de Amida no Sutra da Vida Imensurável

“Se, quando alcançar o Estado de Buda, as mulheres de incontáveis e inconcebíveis terras de Budas nas dez direções, que tendo ouvido o meu Nome, rejubilem com fé, despertem a aspiração à Iluminação e desejem renunciar à sua condição de mulheres, renasçam como tal novamente após a morte, que eu não alcance Iluminação”.

Essa é uma tradução moderna que enfatiza a palavra ‘condição’ de mulheres, ou seja, a condição de discriminação, desvalorização, preconceito e até violência na qual as mulheres eram (?) submetidas.

O Budismo nasceu na Índia patriarcal, tendo o Buda Shakyamuni se rebelado aos condicionamentos estanques de sua época. Por outro lado é sabido de suas 2 recusas para a aceitação de mulheres, a pedido de Ananda, no Samgha. Mas a maior preocupação do Buda, provavelmente, não era com a capacidade feminina em fazer parte do Samgha. Mas sim, em como seus discípulos homens seriam capazes de conviver com elas em igualdade, em como se comportariam, tendo vivido com conceitos tão limitantes impostos às mulheres. Ou seja, será que os homens conseguiriam deixar de se comportar como pais, esposos ou filhos das discípulas do Buda?

Mestre Hônen e Shinran foram os que promoveram a ideia de que todos os seres viventes podem se tornar Buda. Refutando o conceito vigente da época, em que somente os monges e pessoas que acumularam muitos méritos é que poderiam atingir o budato. E apesar do conceito de que todos são iguais, ou igualdade (平等 byôdô), existiam restrições religiosas para as mulheres, que persistem mesmo nos dias de hoje.

Com argumentos como de que o Buda Shakyamuni era homem, portanto somente os homens se tornam Budas, formaram-se conceitos como o 五障 (Goshô – Cinco Impedimentos), uma orientação bastante posterior ao falecimento do Buda, tomada por algumas linhagens, em que se afirmava que as mulheres não poderiam se tornar (ou alcançar o mesmo estágio de) nem Brahma, nem Indra, nem Mara, nem Cakravartin (aquele que gira a Roda do Samsara – transmigrações) e nem Buda. E no 三従 (Sanshô – Três Obediências) que afirma que a mulher limita-se a obedecer o pai quando criança, o marido quando casar-se e os filhos quando viúva. O Goshô-Sanshô são preceitos do Hinduísmo baseados no Código de Manu. E assim concluía-se que às mulheres não seria concedida a Salvação. Mestres como Saichô (Dengyô-Daishi) da Escola Tendai do Hieizan e Kûkai (Kôbô Daishi) da Escola Shingon do Kôya-san eram norteados por estes conceitos.

Mestre Dôgen afirmava que tanto homens quanto mulheres podem atingir a Iluminação e que todos podem tornar-se bons praticantes e bons instrutores, independentemente de serem homens ou mulheres. Mestre Nichiren afirmava que no horizonte da fé, a discriminação sexual é transposta, que homens e mulheres ultrapassam as fronteiras e caminham juntos.

Nos tempos mais antigos do Japão não havia tanta discriminação com relação às mulheres, pois os primeiros monges budistas japoneses ordenados, foram três mulheres, que no século VI partiram para Baekje (Reino de Kudara, um dos Três Reinos na antiga Península Coreana) onde ordenarem-se, retornando ao Japão em seguida.

Com o fortalecimento do conceito de pureza do Shintoísmo, cresceu a discriminação religiosa das mulheres devido ao sangue menstrual e o sangue do parto. Na Era Nara e início da Era Heian quanto mais aumentava a ideia de que o sangue simbolizava a morte, mais diminuíam as funções religiosas femininas. Portanto, Mestre Shinran viveu nesta época de declínio.

Mestre Hônen a fim de conduzir ao correto caminho do Nembutsu reuniu em uma obra 145 perguntas e respostas (Ippyakushijûgokajômondô) à comunidade, onde se vê claramente a discriminação em questionamentos como: Quando a mulher estiver menstruada, ela pode ler os Sutras? Os bebês com menos de 100 dias de nascimento, ainda são considerados impuros, podem ir ao Templo? É um pecado muito grave as mulheres terem ciúmes (já que o ciúme é característica feminina)?

Tanto o Mestre Shinran como Mestre Hônen, embasados no 18º Voto afirmaram que ‘Todos os seres vivos que desejarem nascer na Terra Pura e recitarem o Nembutsu, certamente renascerão na Terra Pura da Suprema Alegria do Buda Amida’.

Mas algumas versões do Sutra da Vida Imensurável impuseram uma condição às mulheres, o Henjônanshi (変成男子) um antigo conceito de que diante da grande dificuldade de se tornarem Budas, as mulheres deveriam transmutar seus corpos e renascer como homens. Este conceito baseia-se no Sutra do Lótus numa passagem onde é descrito como a filha do Rei Naga Shagara (沙伽羅龍王) de 8 anos, orientada pelo Bodhisattva Mañjuśrī (Manjushri), tornou-se um Buda diante de Shakyamuni, transformando-se num homem antes.

Mas o Buda Shakyamuni disse:
“Há vários tipos de pessoas. Havendo aqueles com o coração menos nebuloso, haverá também aqueles com o coração bastante enevoado. Assim como existem sábios, da mesma maneira existem os tolos. (...) Além disso, mesmo havendo uma distinção entre homens e mulheres, não existem diferenças na natureza humana. Se homens e mulheres praticarem o Caminho, percorrendo o caminho adequado a cada um, certamente atingirão a Iluminação (se tornarão Budas).”
Mahavagga 115

Somente depois do Parinirvana de Shakyamuni é que foram introduzidos conceitos discriminatórios sexistas como os Cinco Obstáculos e as Três Obediências (五障・三従) que foram também incorporados pelo Budismo Mahāyāna.

Estima-se que o Sutra da Vida Imensurável surgiu cerca de 500 anos após o falecimento do Buda e como resgate ao conceito de equidade entre homens e mulheres, o 35º Voto reforçou o 18º Voto, garantindo às mulheres o renascimento na Terra Pura - ainda que condicionadas à transformarem-se em homens. Na época acreditou-se que foi um expediente convincente proporcionado pelo Bodhisattva Dharmakara.

Voltando ao Mestre Shinran, aos 76 anos ele escreveu o seguinte Hino (Versão do Rev. Wagner Haku-Shin):

“Profunda é a Grande Compaixão de Amida!

Manifestando a Inconcebível Sabedoria Búdica,

Fez o Voto de libertar as mulheres de sua condição de inferioridade

E dessa forma jurou que elas atingiriam a Iluminação Búdica.

 (Jôdo Wasan – Hinos de Louvor à Terra Pura inspirados no Grande Sutra)

Neste caso, ‘condição de inferioridade’ refere-se diretamente ao Henjonanshi, ou seja, transformar-se em homem para tornar-se Buda.

E posteriormente:

“Homens e mulheres, nobres ou plebeus,

Todos devem recitar o Nome Sagrado de Amida,

Seja quando estão parados em pé, andando, sentados ou deitados,

Livres do tempo, do espaço ou das condições cármicas.”

(Kôsô Wasan - Hinos em louvor dos Patriarcas - Hinos em louvor a Genshin.)

Aqui, não se sabe se foi ou não influência do Mestre Genshin, mas muito provavelmente Mestre Shinran, como um homem de seu tempo, conviveu com a noção de que era muito difícil as mulheres tornarem-se Budas e com o passar do tempo, desligando-se do Budismo do Hieizan e a partir de seu casamento com Eshin-ni, ele afirmava categoricamente a igualdade entre homens e mulheres e a salvação garantida pelo Buda Amida.

No Japão da Era Kamakura, a maioria dos grandes monges defendiam a igualdade entre homens e mulheres, mas por força das mudanças históricas, as mulheres passaram a ser discriminadas. Mestre Shinran afirmava que “O Dharma existe para salvar os seres humanos. Homens e mulheres são iguais perante o Dharma. Portanto não há como o Buda discriminar com base na diferença dos sexos”.

Com o tempo e evolução de costumes, surgiram versões do 35º Voto onde a condição de ‘tornarem-se homens’ foi suprimida, passando-se a interpretar que as mulheres são libertas de sua condição de mulher enquanto inferiorizada, sem identidade, inadequada ou tornada mero objeto. Mais do que politicamente correto ou historicamente evolutivo, a supressão desse condicionamento é o mais adequado ao pensamento do Mestre Shinran, profundamente tocado pelo 18º Voto que garante a salvação a todos os seres, incondicionalmente.

Quando analisamos o 35º Voto (Seiten p. 21), a palavra ‘mulher’ é exposto em três palavras diferentes, ou seja, o Kanji ‘mulher’ é acompanhado por outro Kanji que fornece uma conotação distinta em cada grafia: 女人 (nyonin), 女身 (nyoshin) e 女像 (nyozô). Sendo a primeira, uma referência ao Nyoninkinsei (女人禁制), um costume que proibia a entrada de mulheres em área de práticas religiosas e locais sagrados, como o Hieizan e Koya-san. Tornou-se decreto governamental em 1872.

A segunda nyoshin (mulher + Kanji ), tem sentido de corpo, porte, corpo e alma, carne, conteúdo, espírito, sentimento, posição. E terceiro nyozô (mulher + Kanji): estátua, imagem, figura, ícone, símbolo, imagem (Física) real e virtual.

Desta maneira uma versão do Seiten do 35º Voto enfatizando as três apresentações da palavra mulher, em versão livre seria:

Se eu, após me tornar Buda, se nos inimagináveis mundos de todos os Budas das Dez Direções, existir uma única mulher condicionada aos limites e proibições impostas à ela somente pelo fato de ser uma mulher (女人 nyonin), que tenha ouvido meu Nome, que tenha se alegrado, que tenha despertado o coração para a aspiração de atingir a Iluminação, e desejando poder renunciar a condição de ser vista apenas como um corpo feminino (女身 nyoshin) condicionada aos sofrimentos e discriminações decorrentes de sua posição inferiorizada; que após encerrarem a vida e renascendo ainda com a imagem feminina (女像 nyozô)  que suscite todas as discriminações e preconceitos que a mulher sofre, que eu não alcance a mais alta e suprema Iluminação.

Pesquisa: Sayuri Tyō Jun (2020-08-16)

 

  Outros textos interessantes sobre Budismo e mulheres: http://bonnogusoku.blogspot.com/2018/01/normal-0-21-false-false-false-pt-br-ja.html

http://bonnogusoku.blogspot.com/2015/08/o-encontro-do-mestre-shinran-com-uma.html

 

 

 

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